Table of Contents

Importanto Bibliotecas e configurando Notebook

Importando database e fazendo análise inicial das variáveis

Introdução

Disclaimer: Essa base de dados foi adquirida sob pedido ao projeto The Violence Project (disponível em https://www.theviolenceproject.org). Este projeto já fez uma análise e interpretação destes dados que gerou a criação de um livro sobre o tema.

Essa base de dados talvez seja meu maior desafio até o momento, não só pelo seu tamanho e nível de detalhes, mas pela carga emocional que esses dados trazem. O fenômeno do 'Mass Shooting' é relativamente recente na história mundial, tendo sua ascenção no meio da década de 60 nos EUA, país este que é o maior detentor deste tipo de caso no mundo.

Existem diversas definições diferentes sobre o que é um Mass Shooting (MS), a interpretação utilizada para filtrar e criar a base de dados é a que segue no FAQ da mesma: “… um incidente de homicídio múltiplo em que quatro ou mais vítimas são assassinadas com armas de fogo – não incluindo o(s) infrator(es) – dentro de um evento, e pelo menos alguns dos assassinatos ocorreram em um local público ou locais próximos geograficamente (por exemplo, um local de trabalho, escola, restaurante ou outros locais públicos), e os assassinatos não são atribuíveis a qualquer outra atividade criminosa subjacente ou circunstância comum (assalto à mão armada, competição criminosa, fraude de seguros, discussão ou triângulo romântico)”.

Vale ressaltar que, este trabalho não será direcionado para a criação de modelos previsores ou regressivos para identificação de possíveis atiradores, pois isso levaria à concepção de esteriótipos e preconceitos. Na maioria das variáveis presentes aqui, os valores são proporcionais aos dados demográficos americanos. Por exemplo: 98% dos atiradores em massa são homens, mas 90% de todos os criminosos de homicídio são homens; aproximadamente 58% dos ataques são causados por pessoas brancas, que representam 60% da população do país.

Portanto, os perfis mostrados aqui, serão iguais ou similares à milhões de pessoas que jamais cometeram ou cometerão um MS.

Sobre os ataques

O fenômeno do MS não é novo, porém tem se tornado cada dia mais frequente e mais letal. Todos os dias os noticiários americanos comentam sobre um novo caso ou repercussões de casos anteriores. Colégios com detectores de metais, ruas fechadas devido a ligações anônimas de ameaças, protestos anti-armas, pais tendo que internar filhos em clínicas psiquiátricas.

Não existem dúvidas de que este é um problema de saúde pública nacional e que, a cada ano ele é mais letal e mais frequente.

Até o momento, não parece existir um padrão geográfico e nem de alinhamento político do estado com o número de ataques.

A variedade dos locais é a maior possível. Em grande parte dos casos a escolha do local está relacionada com o motivo do ataque. Segundo dados publicados no livro 'The Violence Project', pessoas que sofrefram de traumas na infância, como bullying, abusos em casa (sexuais, emocionais e físicos) são muito mais propícios a começar ataques em insituições de ensino, enquanto pessoas que sofreram de traumas já na fase adulta tendem a atacar mais os próprios locais de trabalho ou locais públicos sem conexão emocional direta.

Uma grande fatia dos ataque ocorrem por pessoas ligadas diretamente aos locais, revelando como conflitos diários, traumas e outros tipos de estresse podem ser importantes fatores para o desencadeamento de um surto no atirador.

Existe um perfil?

Como mencionado anteriormente, traçar um perfil é talvez uma das mais difíceis tarefas aqui. Em sua maioria, as variáveis de perfil são compatíveis com as estatísticas demográficas americanas.

Retirando a linha que não possui dados dos criminosos.

Há um perfil majoritário masculino com idades entre 20 e 30 anos, porém não se pode descartar a grande fatia com idades entre 32 e 45. Esse grupo é tão presente que faz a média ser estendida para os 33 anos embora o maior pico do histograma seja aos 25.

A ideia de que 98% dos criminosos são homens não surpreende a ninguém, porém as causas que levam a esse fato estão entranhadas dentro da cultura americana (na verdade, em todo o ocidente). Sim, estamos falando sobre masculinidade, sobre porque os homens são ensinados desde crianças que "homem não chora", "homem não demonstra fraqueza", que homens não devem compartilhar seus medos e angústias, etc., e sobre como dessa forma os homens guardam dentro de sí tudo que há de ruim, até eventualmente liberarem essa dor e raiva na forma de violência.

Esse tema é abordado profundamente no documentário ''The mask you live in" e sua versão legendada está disponível gratuitamente na internet. Eu fortemente recomendo que todos lendo esta análise assistam.

Mais uma vez a estatística prevalece, homens brancos e héteros são maioria, seguidos diretamente pelos negros e, também, héteros. Porém, através desde gráfico Sunburst podemos tirar algumas curiosidades como:

- Não existem negros não-heterossexuais na base de dados.

- De todos estes, apenas um, é imigrante.

- Todos os latinos e asiáticos também são héteros.

Isso traz uma boa reflexão, será que para negros é mais difícil de sair do armário? Aqui mais algumas aulas e estudos sobre:

- Black & LGBTQ+: At the Intersection of Race, Sexual Orientation, and Gender Identity( https://www.youtube.com/watch?v=5p28P4GlSn8)

- “It's Just More Acceptable To Be White or Mixed Race and Gay Than Black and Gay”: The Perceptions and Experiences of Homophobia in St. Lucia (https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fpsyg.2017.00947/full)

Uma outra observação sobre estes dados, é que os negros são o grupo percentualmente mais representado da lista. Temos 21% de representação, enquanto demograficamente os negros ocupam apenas 13% da população americana.

Uma forma mais independente de observar o mesmo gráfico.

Aqui as coisas começam a ficar interessantes. O primeiro notório ponto é como praticamente metade dos ataques foram causados por pessoas solteiras. Mas por quê? Dificuldades em se relacionar? Eram loucos? Isolados do mundo? Veremos que todos esse pontos são, na realidade, os mais cruciais dentre os dados.

Quando tratamos de dados relacionados a comportamentos de violência anterior o jogo muda. Aqui vemos que, embora a maioria dos assassinos não tenha nenhum histórico de alteração física ou seja membro de grupo de ódio online, mais da metade já possuía ficha criminal, ou seja, de alguma forma, já havia expressado essa raiva interior anteriormente.

A variedade desses crimes também é muito alta, porém o mais notório é agressão simples cometida por quase um terço dos criminosos, seguida de crimes de violação ao estatuto de controle de armas, tema ao qual nos aprofundaremos mais a frente.

Desvendando Mitos

O primeiro e um dos mais famosos mitos é sobre os Video-Games de violência gráfica, geralmente são do tipo FPS (First Person Shooter) mas outros jogos em diferentes formatos também ganharam muita fama pela violência explícita, como é o caso do GTA (Grand Theft Auto), nos anos 2000.

Este rumor começou logo após um dos atentados mais trágicos e famosos da cultura americana, O Massacre de Columbine, que inspirou livros, filmes e até mesmo a criação desta Database. Os autores desse ataque, Eric Harris e Dylan Klebold eram jogadores do jogo Doom, o primeiro FPS a ser desenvolvido. Desde então, a mídia tem criado muito alarde para este tema, alardes estes que foram desmentidos em diversos artigos científicos (e.g. https://www.ox.ac.uk/news/2019-02-13-violent-video-games-found-not-be-associated-adolescent-aggression).

Vale ressaltar que, esta análise não endorsa a prática de jogos violentos para menores de idade, classificação etária para qualquer tipo de conteúdo existe por um motivo e cabe aos pais limitarem o acesso ou não.

Além disso, pesquisas recentes mostram que entre 10% e 30% dos homens são viciados em vídeo games. Estes números são da mesma ordem do número de positivos no histograma abaixo. Portanto, o vício em sí, pode ser considerado uma variável de perfil dos criminosos, não o jogo casual.

O mesmo também vale para o tão falado Bullying, embora não existam muitas evidências de que isso teria uma participação marcante na vida dos assassinos, não é descartado o malefício que este tipo de prática pode causar em um indivíduo. Além disso, como essas são informações difíceis de se obter e mensurar, nenhum martelo será batido aqui.

Traumas na infância, influenciam?

Trauma é uma daquelas palavras que são usadas com tanta frequência que é difícil saber exatamente o que significa. Diferente do que geralmente é associado, o trauma é uma consequência, não o fundamento.

Os fundamentos são as adversidades sofridas na infância, que não necessariamente predestina crianças a maus resultados ou caminhos porém, pesquisas mostram que, absusos sofridos durante períodos sensíveis de desenvolvimento podem ser incorporados biologicamente na criança, o que significa que, sem a intervenção adequada, pode levar a problemas de saúde física e mental ao longo da vida.

De forma similar aos dados de Bullying, acontecimentos da infância podem ser muito difíceis de serem resgatados e devidamente mensurados, contudo, ainda considerando isso vemos que 35% dos ataques foram causados por pessoas com algum tipo de trauma sofrido na infância.

Sobre os abusos sofridos na infância, vemos que tanto abusos físicos e emocionais estão presentes em cerca de 10% da amostra. Nessa fase da vida, as crianças ainda estão em fase de desenvolvimento cognitivo e cerebral, portanto, essas ações geram danos exponencialmente piores, podendo causar consequências psicológicas ao longo da vida que podem se manifestar como dificuldades educacionais, baixa auto-estima, depressão, problemas para formar e manter relacionamentos, estresse pós traumático, abuso de álcool e drogas, etc.

(Ref: https://www.childwelfare.gov/pubpdfs/long_term_consequences.pdf).

Conclusões e perspectivas

Nessa análise primária, focamos em apresentar o contexto histórico dos Mass Shootings nos EUA, entendendo sua evolução com o decorrer dos anos e revelando detalhes geográficos sobre os eventos. Além disso, descrevemos as características de perfil dos atiradores e entendendo um pouco das suas infâncias, dos históricos familiares e criminais.

Novamente vale ressaltar que, até aqui, a grande maioria dos resultados são equiparáveis aos dados de censo demográfico americano, tendo alguns parâmetros relacionados a histórico criminal e abusos na infância como mais destoantes.